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Matheus Alexandre | מתאוס אלכסנדר

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יהודי ספרדי Doutorando em sociologia e professor.

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Nesse vídeo, a garota diz que leu o Diário de Anne Frank, mas não gostou porque achou que havia “muita vitimização”. Quero refletir sobre isso. Essa garota leu o relato de uma menina judia escondida, tentando sobreviver a um projeto de extermínio, mas não conseguiu enxergar a estrutura de violência ao redor dela. A conclusão foi que sobrou “vitimismo” e faltaram “superação” e “heroísmo”. Isso não é uma questão de gosto e tampouco é sobre essa garota individualmente. Para mim, é sintoma de duas coisas que me preocupam muito sobre os nossos tempos, sobre as novas gerações. Primeiro, uma geração está sendo educada (e aqui não falo apenas das escolas, mas de todas as instituições socializadoras, inclusive famílias, igrejas e redes sociais) para chamar de “vitimismo” aquilo que é simplesmente o sofrimento produzido por violência, discriminação e desigualdade. Se você sofreu, precisa “superar”. Se continua falando sobre o que sofreu, está “se vitimizando”. Esses jovens estão sendo ensinados a não perguntar: o que causa o sofrimento? Segundo, isso escancara o enorme buraco que ainda existe na educação sobre o Holocausto. E aqui vai algo que repito sempre: ensinar sobre o Holocausto não é ensinar apenas sobre judeus. É, sim, ensinar sobre antissemitismo, que segue vivo. Mas é ensinar, também, sobre democracia, sobre direitos humanos, sobre os processos pelos quais sociedades inteiras podem normalizar gradualmente a exclusão e a desumanização de determinados grupos até que sua perseguição, deportação e, finalmente, seu extermínio sejam transformados em política de Estado. Se o relato de uma adolescente assassinada em um genocídio que se tornou um dos paradigmas históricos da reflexão contemporânea sobre direitos humanos pode ser reduzido a “vitimismo”, como essa garota e tantas outras pessoas educadas dentro dessa mesma lógica aprenderão a escutar os relatos de pessoas LGBTQIA+ que sofrem discriminação, de pessoas negras que enfrentam o racismo ou das desigualdades e barreiras enfrentadas por pessoas com deficiência? O desprezo é a única resposta possível. O problema não é essa garota. É tudo o que faltou para que ela conseguisse entender o que estava lendo. E a culpa é nossa.

Nesse vídeo, a garota diz que leu o Diário de Anne Frank, mas não gostou porque achou que havia “muita vitimização”. Quero refletir sobre isso. Essa garota leu o relato de uma menina judia escondida, tentando sobreviver a um projeto de extermínio, mas não conseguiu enxergar a estrutura de violência ao redor dela. A conclusão foi que sobrou “vitimismo” e faltaram “superação” e “heroísmo”. Isso não é uma questão de gosto e tampouco é sobre essa garota individualmente. Para mim, é sintoma de duas coisas que me preocupam muito sobre os nossos tempos, sobre as novas gerações. Primeiro, uma geração está sendo educada (e aqui não falo apenas das escolas, mas de todas as instituições socializadoras, inclusive famílias, igrejas e redes sociais) para chamar de “vitimismo” aquilo que é simplesmente o sofrimento produzido por violência, discriminação e desigualdade. Se você sofreu, precisa “superar”. Se continua falando sobre o que sofreu, está “se vitimizando”. Esses jovens estão sendo ensinados a não perguntar: o que causa o sofrimento? Segundo, isso escancara o enorme buraco que ainda existe na educação sobre o Holocausto. E aqui vai algo que repito sempre: ensinar sobre o Holocausto não é ensinar apenas sobre judeus. É, sim, ensinar sobre antissemitismo, que segue vivo. Mas é ensinar, também, sobre democracia, sobre direitos humanos, sobre os processos pelos quais sociedades inteiras podem normalizar gradualmente a exclusão e a desumanização de determinados grupos até que sua perseguição, deportação e, finalmente, seu extermínio sejam transformados em política de Estado. Se o relato de uma adolescente assassinada em um genocídio que se tornou um dos paradigmas históricos da reflexão contemporânea sobre direitos humanos pode ser reduzido a “vitimismo”, como essa garota e tantas outras pessoas educadas dentro dessa mesma lógica aprenderão a escutar os relatos de pessoas LGBTQIA+ que sofrem discriminação, de pessoas negras que enfrentam o racismo ou das desigualdades e barreiras enfrentadas por pessoas com deficiência? O desprezo é a única resposta possível. O problema não é essa garota. É tudo o que faltou para que ela conseguisse entender o que estava lendo. E a culpa é nossa.

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