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A ARROGÂNCIA VAI PERDER PARA A HUMILDADE O fato mais surpreendente desta eleição talvez não esteja nas pesquisas e na resiliência do Flávio nelas. Está no comportamento dos candidatos. Lula, o político mais experiente do país, tem se comportado como se sua biografia suja e fedorenta lhe desse o direito de escolher as perguntas. Ou de enquadrar jornalistas, disciplinar aliados e punir banqueiros que conversam com o seu adversário. Arrogante e escroto. Flávio Bolsonaro , herdeiro de um sobrenome associado ao mais puro confronto, vem fazendo o caminho inverso. Tem demonstrado serenidade, capacidade de recuar, disposição para ouvir, respeito ao tempo dos aliados e, principalmente, coragem para pedir desculpas. É uma inversão impressionante. O candidato velho está perdendo o controle. O contraste ficou cristalino no Jornal Nacional. Ao ser questionado por Renata Vasconcelos sobre dívida pública e responsabilidade fiscal, Lula não se limitou a discordar da pergunta. Tentou ensinar à jornalista como ela deveria formular o questionamento. Em seguida, sugeriu que ela deveria iniciar a pergunta elogiando os resultados de seus governos anteriores. Lula acha que já pode escolher a pergunta, o enquadramento e até a introdução que deveria ser feita. No dia seguinte, Flávio sentou na mesma cadeira, diante dos mesmos jornalistas, e começou de outra forma: “Renata, em primeiro lugar, quero prestar minha solidariedade a você pelo ocorrido aqui, no dia de ontem, com a descortesia que ele cometeu. Da minha parte, obviamente, fiquem à vontade para qualquer tipo de pergunta.” Flávio recebeu perguntas duras. Não respondeu satisfatoriamente a tudo, e isso precisa ser reconhecido. Mas compreendeu uma regra elementar de uma eleição: Jornalista não existe para agradar candidato. Ah... Flávio havia divulgado uma informação falsa ao associar as urnas brasileiras a uma empresa envolvida em questionamentos sobre eleições venezuelanas. Na Globo, admitiu o erro. “Falei errado sobre a empresa. Ela não fabricou as urnas.” Depois assumiu um compromisso inequívoco: “Vou respeitar o resultado das eleições.” Reconhecer um erro não diminui um candidato. Outro exemplo ainda mais significativo (e que me lembro) ocorreu na crise com Michelle Bolsonaro. Michelle afirmou publicamente que havia sido desrespeitada e humilhada por Flávio. Flávio recuou, reconheceu o desconforto, pediu desculpas e renovou o convite para que Michelle participasse de sua campanha. “Ninguém é perfeito. Eu não sou perfeito e, mais uma vez, peço desculpas”, declarou. Michelle aceitou as desculpas. Os dois retomaram o diálogo e, semanas depois, apareceram juntos numa gravação de campanha. Flávio nessa campanha também demonstrou respeito ao tempo dos aliados. Quando surgiram dúvidas sobre o momento em que Michelle, Tarcísio de Freitas e outras lideranças declarariam apoio mais enfático, ele afirmou: “Eu não vou ficar cobrando qual o tempo de cada um. As pessoas têm o tempo delas e eu não vou ficar cobrando ninguém.” Também foi assim nos encontros recentes com banqueiros e empresários. Flávio entrou numa sala em que muitos preferiam outro candidato. Ouviu críticas, respondeu perguntas e, quando necessário, pediu que Daniella Marques explicasse pontos técnicos do programa econômico. Os participantes saíram cobrando mais detalhes, e essa crítica é legítima. Flávio não fingiu dominar tudo. Levou uma especialista, dividiu o protagonismo e se dispôs a ouvir um ambiente desconfiado. Aliás, quero parabenizar publicamente o painel da Daniella Marques na Moneyweek. Ela traz uma energia técnica e de liderança para a campanha. De novo: a reação atribuída a Lula foi exatamente a contrária. Lula teria sinalizado a aliados que passaria a tratar de outra maneira os banqueiros que estiveram com Flávio. Desde quando conversar com um candidato da oposição se tornou uma traição ao presidente da República? Ameaça publicamente os banqueiros, Lula, para vermos uma coisa. Em fevereiro, durante a comemoração dos 46 anos do PT, Lula declarou: “Essa eleição vai ser uma guerra.” Disse ainda que os militantes deveriam ser “mais desaforados” e anunciou: “Não tem essa mais de Lulinha Paz e Amor.” Foi Lula quem decretou o fim do personagem conciliador que o levou à Presidência em 2002. O Lula da paz e do amor venceu eleições. E a escolha de André Janones reforça essa mudança. Janones comunicou pessoalmente a Lula que voltaria à campanha. Depois anunciou que estava disposto a “matar ou morrer”, que atuaria “sem medo, sem pudor e sem remorso” e concluiu: “Vai começar. É guerra.” O próprio Lula vem adotando um vocabulário incompatível com a responsabilidade de um presidente. Já chamou Flávio de “imbecil”. Classificou a família Bolsonaro como “a pior espécie de ser humano que este país já produziu”. Falou em “família metralha”, “covardes”, “traidores” e “vendilhões da pátria”. Chegou a perguntar o que mereceriam os traidores depois de evocar um enforcamento, numa referência histórica que todos conhecemos. Na mesma sabatina da Globo, Lula chamou Roberta Luchsinger de “PILANTRA” e afirmou que jamais a tinha visto. Entretanto, existem inúmeros registros públicos em que os dois aparecem lado a lado. Tomara que ela não tenha sangue de barata, nesse caso. Nos bastidores da própria campanha, a tensão também transbordou. Lula precisou dar um soco na mesa para interromper uma discussão entre integrantes de sua equipe sobre os rumos da comunicação. Vocês sabiam dessa? Pois é. Eu sei. Somado aos ataques públicos, ao discurso de guerra, à hostilidade contra jornalistas e às reações contra empresários, passa a compor um padrão. Há ainda o capítulo mais sensível: A atuação para afastar o Centrão de Flávio. Emissários de Lula, com aval do Planalto, fizeram uma ofensiva junto a Republicanos, União Brasil e PP para evitar que essas legendas apoiassem Flávio. Foram discutidos pactos de não agressão, alianças estaduais e eventual participação desses partidos numa futura gestão Lula. Posteriormente, integrantes do PL afirmaram que dirigentes partidários temiam o avanço de investigações da Polícia Federal e decisões do Supremo caso apoiassem Flávio. Também houve quem interpretasse operações contra lideranças do Centrão como recados políticos do Planalto. É exatamente aí que a disputa entre arrogância e humildade deixa de ser apenas uma questão de estilo. Torna-se uma questão de poder. Mas existe um elemento da psicologia brasileira que Brasília costuma ignorar. O BRASIL É O PAÍS QUE TORCE PARA O COITADO. Para o injustiçado. Para aquele que apanha de todos. Para o jogador que foi esquecido no banco. Para o time pequeno enfrentando o gigante. Para o personagem da novela que foi traído. E, principalmente, para o participante isolado do BBB. O participante que parecia mais fraco dentro da casa se transforma no favorito do lado de fora. E, quando a agressão parece desproporcional, o brasileiro reage. E ELA JÁ COMEÇA PARECER. Essa lógica pode entrar com enorme força na eleição. O Planalto trabalha para isolar Flávio. O PT o ataca diariamente no seu programa aleitoral. Empresários são constrangidos por recebê-lo. Investigações cercam sua candidatura. Não dá mais para escondar. Na cabeça do eleitor, pode começar a representar perseguição. E há um detalhe decisivo: Quanto mais sereno Flávio permanecer, mais injusta parecerá a agressividade dos adversários. O injustiçado que apanha calado e continua de pé. O eleitor brasileiro não vota apenas em quem considera melhor. Muitas vezes vota em quem acredita estar sendo tratado de maneira pior. É uma identificação do seu dia-a-dia. A eleição não será decidida apenas por programas econômicos, alianças e escândalos . Será também um julgamento social. E o Brasil já mostrou inúmeras vezes para quem costuma torcer nesse paredão. Quando o país tiver de escolher entre quem acredita que o Brasil lhe deve obediência e quem demonstra disposição para conversar, a resposta poderá surpreender muita gente. A arrogância vai perder para a humildade.

Roberto Reis

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