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Cavaaalooooo

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Tem muito tempo que eu quero falar sobre isso, e acredito que seja o momento certo, eu busquei informação por esses ultimos meses para tentar me expressar da melhor forma, então espero muito de coração que haja respeito e seriedade como nunca. Obrigado a quem realmente for ler, e tentar discutir sobre o assunto <3 obrigado de coração a todos. Bom dia, rapaziada. Hoje, decidi tirar um tempo para falar com vocês sobre alguns assuntos que considero muito importantes. Acredito que o nosso cenário atual ainda é bastante imaturo no que diz respeito a questões políticas. Enquanto algumas pessoas têm medo de abordar temas “sensíveis”, outras, que se atrevem a falar sobre eles, acabam sendo inferiorizadas ou tratadas com irrelevância. Isso ocorre, principalmente, por dois motivos. O primeiro é que a maior parte do público do cenário de e-sports é muito jovem. O segundo é que, para estar inserido nesse cenário, é preciso ter uma vida bastante privilegiada. Afinal, não é qualquer pessoa, na verdade, é uma minoria — que tem acesso a um computador para jogar League of Legends e, consequentemente, acompanhar o cenário de maneira mais intensa. Tendo isso em mente, podemos dizer que o público que acompanha o cenário de LoL pertence a um nicho que, em sua maioria, é elitizado. Por isso, busquei mais conhecimento, especialmente em teóricos das ciências sociais, para fundamentar melhor minhas ideias e compartilhar essa visão com a minha galera e com todos que se interessarem e se sentirem bem-vindos. O fato de eu ser uma pessoa preta influencia minha vida cotidiana em todos os aspectos. Isso não é algo exclusivo meu, mas uma ferida da sociedade que recai sobre mim porque, por acaso, nasci com a pele negra. Um grande teórico brasileiro, Milton Santos, escreve sobre a experiência de ser negro no Brasil no mundo moderno. Ele defende que a pessoa preta no Brasil vive em uma luta constante contra os 500 anos de violência que sofreu. E é evidente que 500 anos de escravidão e colonização não seriam apagados com algumas décadas de “libertação”, especialmente porque essa libertação nunca foi completa. Durante esses 500 anos de imposição do homem branco europeu sobre o homem preto e o indígena, os pensamentos que marcaram os âmbitos sociais e políticos eram aqueles pertencentes à classe dominante, nesse caso, os brancos europeus. Muitas leis e doutrinas, que deveriam orientar o povo, têm fundamentos racistas. Por exemplo, há menos de 100 anos, o artigo 138 da Constituição de 1934, durante a Era Vargas, previa que o Estado deveria estimular a educação eugênica. Isso significa, basicamente, que o Estado ensinava a superioridade dos brancos em relação aos negros. Pessoas vivas hoje foram educadas sob essa ideologia. Portanto, o fato de a escravidão ter, supostamente, acabado há muito tempo não significa que os traços deixados por ela não tenham impacto atualmente. Pelo contrário, qualquer pessoa preta no Brasil hoje sente na pele as consequências da escravidão e do pensamento racista e colonizador europeu. Milton Santos argumenta que existem “marcas visíveis” que ajudam a entender a origem dos problemas raciais. A primeira delas é a corporeidade, ou seja, a aparência, a pele, propriamente dita. As outras marcas são a individualidade e a cidadania. O problema central é que, para a pessoa preta, a cor de sua pele sempre chega antes de sua individualidade. Minha pele preta chega à mente das pessoas antes mesmo do Buero, e muito antes do Daniel enquanto cidadão. E isso é apenas uma das consequências do pensamento racista que ainda existe. Milton Santos também explica que, para o pensamento popular, o erro não está em ter preconceito de cor, mas em manifestá-lo. Em outras palavras, hoje em dia, muitas pessoas repudiam ofensas racistas, mas já foram educadas dentro de uma ideologia racista. Esse simples fato afeta diretamente minha autoestima e a de muitos outros homens pretos. A autoestima vai além da aparência: envolve também o intelecto e a cultura. Muitas vezes, sinto que sou incapaz ou que não posso alcançar algo por ser preto, e isso dói profundamente, especialmente quando somos jovens em desenvolvimento, como eu era quando comecei a fazer streams. Quando comecei a streamar, sofri muitos ataques racistas diretos, sendo insultado pela cor da minha pele. Com o tempo, estudei e passei a compreender algumas coisas. Um teórico chamado Franz Fanon explica que, na América Latina, o racismo se manifesta de forma “velada” por conta do passado colonial. Isso significa que as pessoas foram educadas a serem racistas, ainda que de maneira implícita, e, com o tempo, esse racismo se tornou estrutural e banalizado. Ou seja, atitudes racistas passaram a ser vistas como cotidianas e sem grandes consequências, já que foram “normalizadas”. A colonização racial não apenas explorava os corpos das pessoas, mas também calava, apagava e deslegitimava suas culturas, fazendo-as acreditar que elas não existiam ou que eram erradas. Esse processo gerou, em grande parte da população negra brasileira, um complexo de inferioridade. Recentemente, vimos o caso de Vinícius Jr., que foi injustiçado. O mais chocante, porém, é que houve quem dissesse que ele não merecia o reconhecimento porque era “muito combativo”. Combativo em relação a quê? Ao racismo. Falar sobre racismo e combatê-lo é visto quase como uma atitude violenta em uma sociedade moldada pelo racismo estrutural. Confundem submissão com humildade, dizendo que ele deveria ter sido humilde diante das ofensas racistas. Mas, sinceramente, ele deveria ser humilde com quem o insultava por sua cor? Na verdade, a sociedade espera que a pessoa preta se comporte de forma submissa, pois isso facilita a perpetuação do racismo velado. Querem que nossos corpos não lutem, nossas mentes não estudem e nossas vozes não se levantem. Essa submissão é constantemente aplaudida, porque crescemos em um mundo racista. Além disso, há uma constante comparação entre pessoas pretas para justificar regras com base em exceções. Um dos primeiros comentários que recebi dizia algo como: “O jogador X é negro, MAS não fica de mimimi como o Buero”. O simples fato de eu não aceitar ser ofendido pela cor da minha pele me torna, para alguns, um vitimista ou “mimizento”. Esses comentários não são pontuais; eles sempre existiram e continuam existindo até hoje. Assim como a comparação entre pessoas pretas existe, também me vi em situações de comparação com pessoas brancas diversas vezes. A realidade é que, para a pessoa preta, tudo o que é dito é amplificado e julgado como agressivo, enquanto, para a pessoa branca, mesmo declarações absurdas podem ser ignoradas ou minimizadas. Essa comparação desigual faz parte de um julgamento de imagem, uma imagem que não é definida por mim nem por quem observa, mas é mais uma consequência da cultura racista impregnada na sociedade. A representação das pessoas pretas frequentemente segue estigmas e estereótipos criados para diminuí-las e ridicularizá-las. A mulher preta, por exemplo, sofre com a constante sexualização de seu corpo, um reflexo histórico da época pós-escravidão, quando suas opções de sobrevivência eram limitadas à servidão ou à prostituição. Não era uma escolha, mas uma necessidade, algo que, infelizmente, ainda persiste em muitos casos. Já o homem preto é frequentemente visto como agressivo, selvagem, como uma peça fora do lugar, sempre diferenciado dos demais. Como Milton Santos nos mostra, tudo se resume à pele. Se tudo para na pele, a própria identidade da pessoa preta também é interrompida. A cor é usada como principal característica para diferenciar e identificar alguém. “Aquele neguinho ali”, “Quem era aquele neguinho?”, “Aquele neguinho até que era bom”. Eu não tenho nome, origem, idade ou identidade; para a sociedade, eu só tenho cor. Tudo o que me define, minhas ambições, desejos, gostos e desgostos é reduzido à cor da minha pele. Todos os fatores que fazem Daniel ser Daniel e Buero ser Buero são eclipsados pela cor de minha pele. A cor da pele também é usada como justificativa para o apagamento das pessoas pretas na sociedade. Vivemos em um país onde a maioria da população é preta, mas quantos autores pretos você viu na escola? Quantos filósofos, escritores e pensadores pretos foram estudados? Você sabia que, por lei, deveria haver o ensino da história e da cultura afro-brasileira nas escolas? Onde está esse ensino? Não é possível que, em um país majoritariamente preto, tenhamos menos de cinco autores pretos no cânone literário. E aqueles que fazem parte dele frequentemente têm sua imagem embranquecida. O próprio Machado de Assis, por exemplo, foi retratado de forma embranquecida ao longo da história, a ponto de o fato de ele ser preto nem sequer ser mencionado. Estudamos em uma educação que rejeita e esconde as pessoas pretas. Talvez você, que está se preparando para ser professor, possa mudar isso um dia, pelo bem da comunidade preta no Brasil. É evidente que, se a cor da pele afeta os aspectos sociais, ela também influencia a relação com a classe social. Como mencionei antes, vivemos em um país onde a maioria da população é preta, mas as estruturas de poder no capitalismo ainda são compostas por aqueles que sempre estiveram no controle: os descendentes dos senhores de escravos, os herdeiros de dinastias, e até grande parte da classe média, que se beneficia do privilégio branco. Ver uma pessoa preta em posições de destaque ou ascensão social incomoda essas estruturas de poder. É raro, mas, quando acontece, gera desconforto. A maioria das pessoas que vivem na periferia são pretas, consequência de todo o sistema histórico de exclusão que mencionei anteriormente. E o capitalismo faz questão de manter essa situação, perpetuando a pobreza entre as pessoas pretas, com pouquíssimas exceções de ascensão social. “Mas eu conheci uma pessoa preta que era pobre e conseguiu ascender socialmente.” Esse é um caso específico, uma exceção, e não a regra. No entanto, com base em casos isolados, muitos desenvolvem a narrativa da meritocracia, dizendo que tudo é possível se você acreditar e se esforçar ao máximo. Mas essa não é a realidade. A meritocracia é, na verdade, um mecanismo de controle social, que incentiva as pessoas a darem seu máximo para receberem o mínimo, enquanto a engrenagem do sistema segue funcionando como antes, de forma semelhante à escravidão. A cor da pele influencia diretamente a vida social. É mais difícil arrumar emprego, ter relacionamentos duradouros e, em geral, é mais difícil viver. Reconheço que sou uma exceção no meu meio. O ambiente do League of Legends é extremamente racista, e isso faz de mim um alvo constante. Qualquer coisa que digam sobre mim repercute de alguma forma, e, recentemente, essa repercussão tem sido, na maioria das vezes, negativa. No cenário competitivo, a questão das “narrativas” foi um tema relevante, e as narrativas criadas por outras pessoas me influenciaram diretamente. Muitas vezes, começam a falar de situações que nem aconteceram, mas que ouviram de "tal pessoa" e tomaram como verdade absoluta. Por ser preto, isso tem um impacto cem vezes maior, pois não me é dado espaço para me manifestar. A pessoa preta viveu sob o silêncio imposto pelo colonizador durante 500 anos, e a única opção que esperam que ela aceite é continuar calada, de cabeça baixa, simplesmente aceitando ou “entrando na brincadeira”. Quando essas pessoas falam sobre mim e isso gera alguma controvérsia, não há repercussões negativas para elas, apenas para mim. Esse julgamento é feito de maneira inconsciente porque, mais uma vez, tudo para na minha pele. Por isso, é muito fácil deturpar a imagem de uma pessoa preta, a minha imagem. Eu não tenho a oportunidade de me defender ou responder; e, quando respondo, a minha voz não aparece nos canais de cortes ou de fofoca, apenas o que falam sobre mim. Já estou sendo apagado antes mesmo de ter a chance de aparecer. Por que estou falando tudo isso? Nós já sabemos que a sociedade foi educada e induzida a agir de maneira naturalmente racista. De acordo com Antônio Sérgio Guimarães, em Racismo e Antirracismo no Brasil, a maneira mais eficaz de combater o racismo é agir ativamente, falar sobre ele, dar voz a outros pretos e entrar nessa luta que enfrentamos diariamente. Isso é um posicionamento político claro, que sei que contraria o padrão da maioria no cenário competitivo. Mas, se não começarmos, veremos cada vez mais pessoas pretas sendo rebaixadas e isso é muito perigoso. Compreender de onde veio e para onde vai a pessoa preta no mundo atual, e especificamente no meio dos e-sports, ajuda a promover maior inclusão e diversidade em nosso cenário. É isso que busco fazer: dar voz às pessoas e ser um agente ativo de transformação na nossa comunidade. Precisamos mostrar que, com educação, informação e comunicação direta, podemos avançar na emancipação da população negra dentro dos e-sports A pessoa preta convive com um elemento imaterial profundamente presente: o MEDO. O medo faz parte de sua vida desde sempre, pois é influenciada por dois outros elementos: o TEMPO e a MEMÓRIA. Quem nasce na periferia já começa com menos tempo de vida, pois precisa correr atrás do prejuízo para sobreviver. Além disso, carrega o medo constante de simplesmente ser preto em um país racista: medo da polícia, da sociedade, das consequências políticas, e até do ato de existir. Esse medo é agravado pela ausência de oportunidades de libertação. A memória da população preta é apagada, sua cultura e imagem são diminuídas e esquecidas. Apagar essa memória é uma forma de reclusão social, que impede a conscientização política e reduz a participação das pessoas pretas na sociedade. Isso se reflete no número insuficiente de políticos pretos nas câmaras, de estudantes pretos nas universidades e de profissionais pretos em cargos de destaque. Eu convivo diariamente com pessoas que me desejam o mal e atacam até quem está próximo de mim. Não falo de brincadeiras como o “ratinho com diamante”, que não me afeta tanto, mas de comentários racistas que incentivam, por exemplo, que eu me mate. Essas atitudes são manifestações de algo que chamamos de banalização do mal. A naturalização e estruturação do racismo no Brasil transformam o preconceito contra pessoas pretas em algo corriqueiro. Piadas racistas, estereótipos como “ladrão”, “fedido” ou “agressivo” são aceitos e replicados, criando um ambiente onde o mal é banalizado de forma tão extrema que o preto precisa crescer cercado de violência e, ao mesmo tempo, aceitar calado. Quero deixar claro que meu problema não é com a pessoa branca em si, especialmente em um país tão miscigenado como o Brasil. Minha luta é contra o racismo, mais especificamente, o racismo velado que permeia o cotidiano e perpetua as marcas da escravidão. A conscientização negra pode até ser um pequeno band-aid que tenta sarar a ferida de 500 anos que existe no Brasil, mas é muito importante aquilo que falamos nesse dia, e a influência que podemos causar nesse dia. Minha luta é direta e constante. Lembre-se: a culpa não é sua. É apenas o reflexo de um sistema que precisa ser derrubado.

buero

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