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Por mais que possa assustar, quando a emoção é sentida e expressada genuinamente, ela não é sinal de fraqueza, nem de vergonha, mas de força e coragem. Não se envergonhe por sentir, Eduardo. Todos nós carregamos dores, sentimentos de injustiça e pontos de interrogação que, uma hora ou outra,...

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A sensação, nos últimos tempos, é de que o mundo entrou em um ciclo de tensão constante, como se estivéssemos sempre à beira do fim - e isso vai desgastando, silenciosamente, até os mais fortes. Para quem vive de acompanhar, interpretar, analisar e expor o que acontece no mundo, isso pesa ainda mais, porque não é possível simplesmente desligar. A gente absorve, carrega e, muitas vezes, também sente. Mas hoje é sábado, e eu escolhi interromper esse fluxo. Escolhi não alimentar a mesma engrenagem que nos mantém presos em um estado de alerta permanente. Porque existe algo que precisa ser preservado a qualquer custo - a nossa capacidade de sentir paz, de encontrar beleza, de manter a alma de pé, mesmo quando tudo ao redor parece desabar. Essa música, essa voz, esse momento… não são apenas um respiro estético. São um lembrete profundo de que existe algo dentro de nós que não pode ser corrompido pela dureza do mundo. Existe uma dimensão da vida que não é atingida pela política, pelas crises ou pelas narrativas de medo. É ali que moram a fé, a esperança e a força silenciosa que sustenta quem não se deixa quebrar. A verdade é que o mal não começa nas grandes coisas - ele começa quando a gente cede por dentro, quando a gente perde a capacidade de acreditar, quando a gente se acostuma com o peso e esquece que também pode existir leveza. Por isso, mais do que nunca, escolher momentos como esse é quase um ato de resistência. É dizer, de forma firme, que nem tudo será tomado, que nem tudo será escurecido, que existe algo que permanece intacto. Que esse vídeo seja um ponto de reconexão. Um instante em que você lembra quem você é, no que você acredita e por que ainda vale a pena seguir em frente. Porque, no meio de tudo isso, no meio de tanta distorção e caos, ainda existe algo muito simples e muito poderoso - a decisão de não deixar a sua luz e a sua fé se apagarem.

Karina Michelin

17,333 Aufrufe • vor 3 Monaten

O Navio de Teseu Sobre o paradoxo de Teseu e a dissolução do eu Dizem que no porto de Atenas havia um navio. Não um navio qualquer: era o navio de Teseu, aquele que havia navegado até Creta e derrotado o Minotauro. Os atenienses o preservaram por séculos, como relíquia e testemunho. Mas o mar, e o tempo, apodreceram a madeira. E cada prancha deteriorada foi substituída por outra. E depois outra. E outra ainda, até que não sobrou nenhuma tábua original. A pergunta, então, que o filósofo deixou flutuar no ar foi: aquele navio ainda era o navio de Teseu? Plutarco nos legou o paradoxo, mas a pergunta pertence a todos os séculos. Porque não se trata, em rigor, de carpintaria naval. Trata-se de nós. Do estranho esforço que fazemos, a cada manhã, de reconhecer no espelho um rosto que julgamos contínuo, quando, na verdade, é uma sequência de rostos, superpostos, em que cada versão apaga e reescreve a anterior. A biologia, que não se importa com nossa angústia, informa-nos que o corpo humano renova a maior parte de suas células ao longo dos anos. Que a pele que carrego hoje não é a mesma que aprendi a chamar de minha. Que as moléculas que compõem este pensamento que agora formulo já foram, antes, água de rio, terra, ar respirado por alguém que já morreu. E a neurociência diz que o cérebro é plástico, ou seja, que o pensamento é um constante rascunho. E no entanto, insistimos em dizer “eu”, como se houvesse uma entidade estável por trás dessa sílaba breve. Insistimos em lembrar, sabendo que a memória não é um arquivo, mas uma ficção que se reescreve a cada evocação. Insistimos em sermos os mesmos, mesmo quando o que somos desmente essa pretensão a cada decisão que tomamos, a cada amor que começa ou termina, a cada mudança que fazemos, seja física ou psicológica. Talvez o erro esteja na pergunta. Perguntar se somos os mesmos pressupõe que a identidade é uma coisa, um objeto, uma substância, uma tábua de navio que ou persiste ou apodrece. Mas e se a identidade for um verbo? E se o “eu” não for aquilo que permanece, mas aquilo que continua, que se move, que se narra, que tece fios entre o que foi e o que será, construindo a ilusão, ou talvez a realidade, de uma trajetória? Dizem que somos feitos de memória e de linguagem, e a linguagem, sabemos desde Ferdinand de Saussure, é arbitrária e convencional. Os nomes que damos às coisas não são as coisas. O nome que damos a nós mesmos não é o que somos: é apenas o título provisório de uma obra em curso. Somos também feitos de relações, de tudo aquilo que os outros viram em nós antes que nós mesmos enxergássemos. Somos os traumas que nos moldaram sem que os convidássemos. Somos as alegrias que nos abriram onde estávamos fechados. Somos as perguntas que ainda não respondemos, e talvez sejamos sobretudo isso, esse movimento de perguntar que não cessa. O labirinto que Teseu percorreu com o fio de Ariadne era exterior: corredores de pedra, o Minotauro no centro, a saída no horizonte. Já o labirinto que cada um de nós percorre é feito de outra matéria, de tempo e de significado, de esquecimento e de desejo. E não há fio que nos guie senão a narrativa que construímos sobre nós mesmos. Uma narrativa que muda. Que é, ela própria, um navio cujas tábuas são trocadas. E aqui reside, talvez, a libertação estranha que o paradoxo oferece: se não somos uma estrutura fixa, então as versões de nós que fracassaram, que erraram, que se perderam, não são sentenças definitivas. São capítulos. São tábuas que apodreceram e foram substituídas. A culpa que carregamos de uma versão antiga de nós mesmos, aquela pessoa que fomos antes de saber o que sabemos agora, é a culpa de um navio por uma tempestade que já passou. O navio de Teseu continua navegando. A identidade não é o que persiste imutável; é o que persiste em movimento. Somos o processo de sermos. E talvez isso seja suficiente, talvez seja até mais do que suficiente, para atravessar o mar. Somos, enfim, o navio de Teseu.

JAMES WEBB

14,643 Aufrufe • vor 2 Monaten